Geralmente começa assim “sabes, eu sou casado mas é como se não fosse, dou-me muito mal com a minha mulher, quase já não nos falamos, nem tampouco dormimos juntos... mas é por causa das crianças que eu não me separo... tens de entender... quando elas forem maiores eu resolvo o problema” ou então “a minha mulher é muito doente e seria uma injustiça pedir o divórcio… mas na prática eu sou solteiro porque não dormimos juntos, nem agimos como um casal”
Qualquer pessoa pode ser envolvida numa história destas, mas o que marca a diferença não é como se entra nela, mas como se consegue sair. Muitas vezes o tempo arrasta-se, porque persiste a esperança de um dia tudo se vir a resolver, ainda que no fundo haja a noção clara de estarmos a cair na célebre canção do bandido. Mas a razão acaba por ser completamente absorvida pela emoção. Opta-se por tapar o sol com a peneira e acreditar que tudo corresponde à verdade.
Há então que desmontar esta história. Primeiro que tudo, os filhos não são, nem devem ser, motivo para alguém manter um casamento. Aliás, se perguntarmos a jovens que viveram este tipo de situações, constataremos que são eles próprios que defendem que os pais devem procurar a felicidade. Obviamente que gostariam que mantivessem casados, mas felizes... e viver casamentos de fachada não dá felicidade a ninguém! Quem se desculpa com os filhos, esconde sempre outro tipo de problemas. Ou existe o receio de ficar sozinho, de baixar o nível de vida ou o afecto pela amante não é suficientemente forte que justifique uma separação.
O facto da mulher estar doente é, muito frequentemente, uma mentira que acaba por servir dois propósitos. Por um lado, justifica não haver divórcio, por outro coloca o bígamo numa posição de benfeitor, de pessoa com valores morais elevados. Como dizer a alguém que se separe de uma pessoa fragilizada, doente ?
Certo é que manter-se no lugar da outra, acarreta apenas desilusão. Regra geral forma-se uma espiral de sofrimento de onde é dificil sair, pois há o recurso contínuo à chantagem emocional. “Se gostasses realmente de mim, esperavas que eu resolvesse a situação”, “não entendes a minha situação... queres que eu traumatize os meus filhos?” e outros argumentos do tipo, são usados de forma a manter a outra pessoa prisioneira de uma ilusão. Pretende-se que o tempo vá passando e a vida dupla perpetua-se.
É um acto profundamente egoísta porque não leva em consideração os sentimentos da amante. A relação arrasta-se no tempo à custa da destruição da sua auto-estima, pois os recursos internos vão sendo consecutivamente anulados a ponto de não haver forças para saltar fora.
Por isso mesmo, há que ficar alerta para este tipo de situações. Como comecei por dizer, ninguém está a salvo delas mas a grande diferença reside em saber cortar a tempo. Não levar em conta as falsas promessas, nem tampouco deixar-se enredar pelas malhas da chantagem emocional. Tudo isso são “cantos de sereia” como tal, o melhor é colocar-se a milhas antes que vá sendo tarde....
Texto da autoria de Drª Teresa Paula Marques
Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta
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Para mais informações aceda ao site: www.teresapaulamarques.com
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