Ao dizermos que alguém nos desiludiu estamos, ao mesmo tempo, a afirmar que nos deixámos levar pela ilusão. Ilusão essa que vive de mãos dadas com o sonho ... o tal que comanda a vida. Iludimo-nos, quando olhamos para alguém e o que vemos não corresponde, de facto, à realidade. Quando julgamos precipitadamente, quando nos esquecemos de ligar o “desconfiómetro”, e queremos muito, mesmo muito, acreditar que os nossos sonhos, os nossos desejos, estão ali materializados.
De algum modo, tudo funciona como se colocássemos, ainda que temporariamente, umas lentes cor-de-rosa em frente dos olhos e observássemos o mundo através delas. Mesmo com a consciência de que a desilusão é fruto da ilusão, certo é que nos magoamos e da mágoa nasce a zanga. Zanga contra o outro, mas também contra nós próprios, por estarmos, mais uma vez, a cair nos mesmos buracos, por não teremos sido capazes de nos proteger da dor.
Queixamo-nos então do desamor, de termos dado muito mais do que recebemos, de não nos ter sido conferido o verdadeiro valor, de apenas termos estado ali ... num lugar onde a solidão não nos tardou a desalojar.
Zangamo-nos com os amigos, aqueles que se mostram sempre disponíveis para estar com os outros amigos ( em regra com os que estão sempre animados, para quem a vida tem de ser vivida em clima de perpétuo carnaval) e que pouco se importam em apoiar-nos nos momentos mais cinzentos. Lembramo-nos das alturas em que lhes servimos de muleta para as horas más, de todas as vezes que gargalhámos em sintonia por coisas despropositadas.
Revoltamo-nos, à falta de melhor alvo, com os nossos pais, que não souberam preparar-nos convenientemente para lidar com os outros, para percebermos as suas intenções logo desde o prefácio, sem termos de nos arrastar até ao epílogo. É verdade ... zangamo-nos também com Deus nas suas diversas formas. Questionamo-nos se somos, de facto, merecedores de tudo isso.
Principiamos então a colocar um travão, o que passa por um desinvestimento emocional igual, ou até superior, ao que tínhamos inicialmente investido naquela relação. Cortamos com quem nos desiludiu ou, muito simplesmente, nos vamos afastando emocionalmente. Deixamos de nos importar se está bem ou mal, respondemos horas depois aos sms que nos envia, “esquecemo-nos” de retribuir o telefonema não atendido, deixamos de pensar nele para partilhar o que quer que seja.
Muitas vezes, o outro, o que no desiludiu, nem se apercebe que este processo se iniciou mas, virá o dia em que nos bate à porta e só então constata que a casa está vazia !
Texto da autoria de Drª Teresa Paula Marques
Psicóloga Clínica
Consultórios:
Para mais informações aceda ao site: www.teresapaulamarques.com
O artigo foi enviado para o email indicado
Ocorreram erros, verifique os campos a vermelho