Este é, quase, um tema tabu. O termo “inimigo”, por ser politicamente incorrecto, é muitas vezes substituído por adversário ou, quanto muito, “alguém que não gosta muito de mim” como se, ao evitarmos pronunciar a palavra, também pudéssemos anular a sua existência.
É suposto que, à medida que vamos caminhando na estrada da vida, vamos cimentando amizades, criando cumplicidades mas, em hipótese alguma, deveremos assumir que temos inimigos, ou pseudo-amigos.
Talvez porque, no nosso tempo é, também, suposto que todos sejamos todos muito civilizados o que implica, de entre outras coisas, sermos capazes de criar consensos, limar as arestas e permitir que tudo deslize lindamente, sem quaisquer atritos. Pois, só que é certo e sabido que nada disso se passa exactamente assim. Chega um momento em que já não serve de nada querer tapar o sol com a peneira e, das duas uma, ou optamos por viver na mediocridade, ou então é mais do que certo que vamos conseguir granjear umas quantas inimizades.
Estar constantemente a criar consensos, implica não dar opiniões, não ter coragem para se posicionar claramente na vida, desejar dar-se bem “com Deus e com o Diabo”... Enfim... é como viver num mar sem ondas, o que implica nunca sair do mesmo lugar. Os conflitos, as críticas, o confronto de ideias, permitem-nos avançar num qualquer sentido e até evoluirmos em termos pessoais.
Nesse sentido, os inimigos podem desempenhar um papel bastante importante, até positivo, na nossa vida (mal sabem eles...) pois, face às situações concretas, podemos analisar o problema e concluir que fomos injustos, incorrectos com determinada pessoa e, por isso mesmo, desejamos corrigir o que está mal. Nesse caso, exercitamos a nossa capacidade de sermos humildes e fazemos tentativas de reaproximação, que passam pelo restabelecimento do diálogo.
Porém, quando sentimos que por detrás da inimizade existem sentimentos que vivem paredes-meias com a inveja, parece que o melhor é deixar tudo tal e qual está. Encarando a realidade olhos-nos-olhos, é preferível ter um inimigo perfeitamente sinalizado, do que alguém que se passe a esconder por detrás da capa de amigo mas que, a qualquer momento estará pronto a apunhalar-nos pelas costas. É que a inveja constitui uma espécie de doença incurável. Contra ela não há nada a fazer!
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Texto da autoria de Drª Teresa Paula Marques
Psicóloga Clínica
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