Pessoalmente, o meu grupo de trabalho iniciou, no Hospital de São José, a cirurgia da obesidade em 2001 e com cerca de 1400 operações de obesidade estamos em perfeitas condições de confirmar esta nova realidade. Entre os nossos doentes operados cerca de 15% são diabéticos de tipo II e destes 85% viram as suas diabetes controladas, o que pressupõe, só por este factor independente, um acréscimo de anos de vida e, sobretudo de qualidade de vida, apreciáveis e inatingíveis por outra via. E isto sem falar dos restantes benefícios associados ao emagrecimento produzido.
Como entre nós, por todo o mundo o interesse cresce e Francisco Rubino, laparoscopista italiano, inicia, no final dos anos 90, uma série de trabalhos experimentais que viriam a revelar alguns dados fundamentais sobre o conhecimento do mecanismo de controlo da diabetes pela cirurgia, apontando nitidamente para se tratar de um efeito endócrino ou metabólico em que as mudanças anatómicas induzidas pela cirurgia se reflectem em alterações hormonais importantes que começam a ser estudadas de forma quase frenética.
De entre uma centena de hormonas produzidas pelo intestino, chamadas incretinas, o GLP1 (Glucagon Like Peptid tipo 1), o GIP (Glucosedependent Insulinotropic Peptid) e o PYY3,36 (Pancreatic Peptid tYrosine-tYrosine, também conhecido por PPY3,36) tornam-se protagonistas e são hoje profusamente investigados.
Estas moléculas proteicas produzidas em diferentes locais do intestino têm a capacidade de controlar o apetite e de regular a produção de insulina e glucagon pelo pâncreas, a produção de açúcar pelo fígado, bem como tornar a insulina produzida pelo próprio organismo de novo eficaz no controle da glicemia, isto é, dos açúcares do sangue. E até as próprias células pancreáticas produtoras de insulina, aparentemente cansadas e moribundas no estado diabético, voltam a florescer e aumentar de tamanho e número após um bypass gástrico ou similar.
Esta é a grande contribuição da cirurgia moderna para a nova pandemia do século XXI, umbilicalmente ligada à cirurgia da obesidade. Se hoje em dia falta a confirmação, dita científica, destes efeitos na diabetes, os estudos em curso encarregar-se-ão de a fornecer.
Os estudos randomizados e prospectivos (condições sine qua non para validar conclusões de estudos) em curso produzirão resultados que confirmarão aquilo que os cirurgiões dizem hoje ser verdade embora não saibam explicar perfeitamente por que acontece. Até lá, mesmo os médicos que não têm contacto com a realidade destas operações têm muitas dúvidas sobre a veracidade dos seus efeitos e muita tinta vai correr até esta modalidade terapêutica ser aceite como válida.
Isto porque o envolvimento de um acto cirúrgico implica riscos que, sendo diminutos não são desprezíveis. E, por outro lado, a inultrapassável questão dos custos do tratamento cirúrgico inviabilizam esta modalidade como terapêutica de massa para os 300 milhões de diabéticos esperados em 2025.
Mas, na prática, existe uma luz ao fundo do túnel e quem sabe o diabético tipo II de hoje pode deixar de ser o ser amanhã e, sobretudo, pode aumentar a sua qualidade de vida e libertar-se do espectro das complicações desta terrível doença.
Texto: Dr. Rui Ribeiro
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