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Benção e maldição
Mas será que as tecnologias são, efectivamente, a causa de todos os males? Vítor Rodrigues não irá tão longe, mas defende que, «infelizmente para muitas pessoas», a tecnologia se tornou «sinónimo de coisa boa para consumir», razão pela qual acredita que a tecnologia moderna será, «simultaneamente, uma bênção e uma maldição».
A verdade é que, se por um lado «ela produz muito conforto e muita qualidade de vida», por outro também cria «um volume enorme de consumos supérfluos e um impacto ambiental que ameaça a própria espécie humana».
Já a socióloga considera que a tecnologia está longe de ser a origem de todos os males. Maria do Carmo Gomes recorda que «as TIC mudam as sociedades porque as pessoas se apropriam delas» e essa apropriação altera-se «de acordo com as qualificações e as necessidades de cada um». Maria do Carmo Gomes defende que a maior parte dos medos que existem face às TIC.
Stress tecnológico
Apesar desta habituação, a ansiedade resultante da abstinência do uso de tecnologias é algo possível. Apesar de não existirem estudos nesse sentido em Portugal, Maria do Carmo Gomes considera que seria importante saber como vivem as pessoas sem as tecnologias, depois de se terem habituado a elas.
Na verdade, não ter a agenda do telemóvel disponível, «pode causar tanta angústia como não ter a antiga agenda em papel», exemplifica. Outro aspecto considerado «verdadeiramente stressante», por Maria do Carmo Gomes, «é a questão da mobilidade e da urgência da resposta».
A ideia de comunicação on-line, instantânea, acaba por «provocar pressão, no sentido de se ter respostas urgentes, de arranjar soluções imediatas». São muitas as pessoas que sentem necessidade de responder a um email no exacto momento em que o recebem, sendo que, «se não o fizerem, essa situação pode causar-lhes stress».
Também o facto de se estar a apostar cada vez mais na mobilidade, «leva a que todos os tempos da nossa vida sejam sempre inundados com as diferentes possibilidades que as TIC oferecem, criando um adensar de comunicação para o qual os seres humanos podem não estar preparados», acrescenta.
Regras e códigos
A criação de um código de conduta capaz de permitir lidar com este tipo de problemática seria uma resposta talvez exagerada, embora Vítor Rodrigues considere que, da parte dos fabricantes, seria interessante que, antes do seu lançamento, cada novo produto fosse estudado «quanto ao seu potencial para viciar e alterar as relações pessoais e sociais».
Maria do Carmo Gomes sublinha que existe já um conjunto de regras que balizam a utilização, por exemplo, dos telemóveis. Segundo um estudo realizado pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresas (ISCTE), questionadas sobre os locais onde seria importante ter este tipo de aparelhos sempre desligados, os inquiridos não hesitavam:
«Deviam desligar-se nas cerimónias fúnebres ou nas igrejas». No entanto, curiosamente, as actividades lúdicas e de lazer não estavam contempladas neste caso.
Texto: Claudia Marina com Vítor Rodrigues (psicólogo) e Maria do Carmo Gomes (socióloga e investigadora do CIES-ISCTE)