19h05 – Numa cervejaria

19h05 – Numa cervejaria

- Escuta, eu dou em maluca, se não vier para aqui descomprimir, depois de estar oito horas enfiada na fábrica.

Sabes uma coisa, eu nem consigo olhar para o meu Zé, sem estar ligeiramente bêbeda. Está fora de questão entrar em casa sem umas minis no bucho. Ando tão fartinha desta vida: casa-fábrica, fábrica-casa! Qualquer dia fujo, a sério.

- O Zé não se zanga contigo quando chegas a casa, por causa do cheiro a álcool e assim? Se fosse o meu, levava logo uma lamparina, mal abrisse a boca.

- Achas?! Eram precisos vinte Zés para me baterem. O meu anda ali mansinho que nem um cão e se levanta muito a garimpa, ainda leva com um cinzeiro nos cornos.

- Oh pá, estou mesmo desmoralizada. Tu já viste? Este ano nem temos Carnaval, nem nada. É uma tristeza. E eu que já tinha tudo preparado para me mascarar de primeira-dama, fui aos chineses comprar tinta castanha e tudo.

- O quê e já não te vais mascarar de Madame Passos Coelho? Eu cá vou disfarçada para a fábrica, não vou perder este regabofe. Vai ser lindo ver a malta nas máquinas, vestida “à la baile da Pinha”. Não sejas piegas, Maria. Lá porque nos tentam cortar as pernas, não significa que deixemos de abanar o capacete. Isso é que era bom!

 

Cláudia Lucas Chéu

Biografia 

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