Aberta para obras!

Aberta para obras!

A última coisa que alguém quer ouvir, dos que lhe são próximos, quando está à beira do precipício, é a frase: “eu avisei!”

Por que isso não traz solução alguma.
Apenas reaviva a imutabilidade que é o passado. Não podemos mudá-lo; é pedra. Ouvimos dizer que “quem avisa, amigo é”. E até agradecemos que assim seja. Mas se, mesmo avisados, não agimos de acordo com os avisos que recebemos no “antes”, isso não significa que temos de os ouvir no “depois”, a salientar que nos avisaram; quais papagaios a reclamarem o protagonismo de saberem de antemão que a coisa por ali ia correr mal.

É que, se não sofrermos de amnésia, não precisamos de ser lembrados de que fomos avisados. Já o sabemos, e por isso podemos fazer diferente à frente. Só que precisamos de ser restaurados primeiro. Maior do que aquele amigo que avisa, e do que aquele amigo que recorda que um dia já avisou (e com base nisso, agora, nada faz), é aquele amigo que é capaz de não se ausentar na hora de colar os cacos, de reconstruir o puzzle, de arregaçar mangas e pôr mãos à obra, sem perguntas fazer e sem respostas tentar obter. Permanecer.

Também existem aqueles que sabem, ou pensam que sabem, e não nos avisam, apoiados na teoria de que temos de decidir por nós e sem influências. Depende tudo da forma como avisamos. Avisar não tem de ter um grau severo associado, ou seja, não pressupõe que apontemos um único caminho a alguém, de uma maneira tão radical que o verbo "agir" passe a ser um temor da consequência de não agir - ao invés de ser um reflexo da liberdade, que nos foi conferida, de escolhermos, errarmos, arrependermo-nos, aprendermos e voltarmos a escolher diferente.

Avisar é sinónimo de aconselhar. É injectar prudência. É sugerir sem enfatizar os senãos. Por que  até os conselhos mais sábios devem ser dados sem os punhos cerrados, que nos causam medo e opressão na acção. Tal como a história bíblica do filho pródigo: as mãos de quem aconselha têm de estar abertas para o regresso dos que querem voltar a casa após escolherem mal. E se isso acontecer não nos devemos fechar para obras, pelo contrário, temos de nos abrir para que o processo de restauração comece imediatamente, sem brechas para dúvidas, recordações e vozes alheias destrutivas. É que nem sempre damos o uso correto aos dedos indicadores das nossas mãos, que servem para apontar uma direção. Conta-se, também pelos dedos, as vezes que, infelizmente, eles se levantam para acusar em vez de dirigir.

Acredito que a toda a hora recebemos sinais de um dedo indicador que não vemos mas que está sempre presente na nossa vida. Ele dá-nos luzes verdes, vermelhas e laranjas (como nos semáforos) e aponta-nos direções. Mas não nos obriga a escolher isto ou aquilo, nem sequer a segui-lo. Dá-nos o livre arbítrio, ainda que sob a sua protecção e abrigo. Na relação que esse dedo quer ter com todo o nosso corpo jamais existirá um “eu avisei”, num tom acusatório. Porque ele não castiga, em caso de desobediência. Ele restaura com a paciência, tempo, minúcia e cuidado.

Como os artistas que recuperam o que está estragado e todos aqueles que trabalham em conservação e restauro do património. A escultura ganha uma dimensão mais significativa após o toque desse dedo que conhece o que está para a frente e o que esteve atrás. É que não há dedo de oleiro como este. Por isso é que se diz que o futuro é de barro, e nós também devemos querer ser.

Thank God i’m a (wheels) woman que quer ser moldada todos os dias pelo dedo indicador e que coloca as suas rodas na roda do oleiro para as trabalhar. Sim, estou aberta para obras!
 

    

Texto de Mafalda Ribeiro

Biografia

 

 

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