Bendita Cafeína

Bendita Cafeína

Peguei num livro da prateleira, era um do Saramago assinado por ela – «para a minha ‘bica favorita’...».

Para além de tantos gostos que temos em comum, este entendo-o como expoente de doçura. Em todos os livros que ofereço, escrevo. Dedico palavras minhas a quem dou de presente palavras de outros. É um vício escrever nos livros dos outros; deixar registada a marca do sentimento de dar um livro a alguém. Pois para mim escolher um livro para uma pessoa e fazer dele um presente é quase um instante sagrado.

Como sagrado é o instante em que bebemos uma bica olhos nos olhos de quem gostamos. Vícios para uns, que eu tomo enquanto prazeres, – um café, um bom livro, mas raramente a solidão. Porque não chego ao balcão, mas tenho quem peça um carioca por mim e o traga à mesa. Porque se me apetecer um galão nunca deixo de o beber ainda que o edifício não esteja acessível às minhas quatro rodas. Porque demoro uma eternidade a mexer o descafeinado, no sentido dos ponteiros do relógio, a fazer durar uma conversa que não quero que termine no último gole da chávena. Porque sei que escolho a companhia certa para beber um cappucino e sabe-me sempre a pouco.

O ritual, a que quase nenhuns dão valor, de ser capaz de rasgar o pacote do açúcar e deitá-lo numa xícara, abrir a embalagem que envolve o pau de canela, que às vezes dorme em cima do pires, fazer movimentos circulares com a colher que mistura e derrete o doce no amargo do café, soprar o quente da bebida no inverno e juntar-lhe uma pedra de gelo no verão para o arrefecer, e pegar na chávena com cuidado para que não entorne até chegar à boca é totalmente impossível de existir por si só numa pessoa com quadriplegia, por exemplo.

É por pensar nisto assim que não gosto de estar sozinha com uma bica à frente. Lembro-me sempre do Pessoa, no café A Brasileira, muito provavelmente infeliz porque quem se senta com ele à mesa não está lá mais do que o momento instantâneo da fotografia que tira, não lhe pergunta pela vida nem pela sua família de heterónimos... Para mim aquela estátua personifica (por associação) o vazio de se tomar uma bica curta em disponibilidade para se estar com alguém, a angústia de querer pedir auxílio e não ter a quem e, principalmente, o escuro de não haver ninguém para partilhar a beleza que vive numa simples bica.

É um convite expresso à amizade, pingada com a essência e o aroma que nos desperta para uma vida que só faz sentido com os outros. Mas conseguir durante um dia inteiro tirar dez ou quinze minutos de pausa para mergulharmos em nós, é como se fosse o instante de café que fazemos acontecer naturalmente várias vezes por dia naturalmente. No silêncio do paladar do café nos lábios e na paz da sua leveza garganta abaixo é possível encontrar, dentro de nós, a bendita cafeína que nos adocica o amargo da vida.

Com o passar dos tempos e o decorrer da história foram-se actualizando as formas de “tirar” um café. Transformar os seus grãos naquilo que habita na nossa chávena e nos aquece, desperta e integra socialmente, hoje em dia, é um ritual, para muitos, quase sagrado. Independentemente de marcas, o facto é que o conceito das cápsulas tem ganho terreno sobre outros cafés. Beber um café destes é um requinte! Um prazer introspectivo ou partilhado, mas lentamente saboreado. O instantâneo que a cápsula transporta aliado à limpeza e rapidez de dela sair um café bonito em forma e em conteúdo são motivos mais do que suficientes para nos modernizarmos.

A contemporaneidade das relações humanas deve ser encarada da mesma maneira. Sem perder as propriedades iniciais. Concentrar-se nos valores originais, sem corantes nem conservantes, em todos os seus ingredientes. Acompanhar o progresso através de meios que nos aproximem dos outros com conforto, pragmatismo e simplicidade (sem simplismo). Ter uma relação com um amigo é ter a sensibilidade de reconhecer o interior da sua embalagem quando ele nos fala ao coração, manter presente o sabor único de beber o que nos ensina, alimentando-nos nas memórias que nos unem e conhecer a singularidade da cor, da espuma e da imagem que podemos manifestar nos outros quando algo maior se manifesta em nós.

 Thank God i'm a wheels woman é como beber bica eternamente bem acompanhada. BICA quer dizer “beba isso com açúcar” e é sinónimo de “cafezinho” no nosso país. Bebê-la cheia é envolver-me com a sociedade, que eu acredito que cada vez mais faz por me integrar, à semelhança de quem comigo bebe um café.  É não desistir de uma luta que a frio parece mais longa. E é confiar nessa tal bendita cafeína que me aproxima (num caso muito particular) de um “Chéu”* ao alcance dos meus braços curtos.

 

*Esta crónica foi escrita para a "vizinha das sextas-feiras", aqui no portal Sapo Mulher, Cláudia Lucas Chéu.

 

Texto de Mafalda Ribeiro

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