Depende exclusivamente do que desejamos operar na vida de alguém. Se o que queremos é plantar uma semente que floresça, dê frutos, mate a fome e volte de novo à terra em forma de semente; então sejamos fonte ilimitada. Se o que queremos é apenas ser uma solução efémera, instintiva, mas escorregadia por entre os dedos, sem opção de aproveitamento do que há de melhor nessa água para um dia regar outras terras; então sejamos mãos unidas que, a muito custo, seguram um punhado de água. Se o que queremos é dar primazia à quantidade e à certeza de que não vamos derramar gotas indevidamente, limitando o que é meio cheio e o que é meio vazio; então sejamos um copo de água nas mãos de alguém.
Ao acreditar que Deus não muda coisas, muda pessoas, acreditamos igualmente que ao mudarmos a forma como damos de beber água a alguém mudamos a qualidade da água. Querer ser fonte é muito mais trabalhoso do que fazer uma concha com as mãos ou agarrar num copo. Nas últimas duas situações, a responsabilização é parcial se perdermos a água ou se partirmos o copo, pois seremos somente um meio de transporte. Mas se formos uma fonte, temos a responsabilidade de jorrar água límpida e fresca em bons princípios e valores construtivos. É uma condição essencial nisto de sermos fonte. E, enquanto parte do ciclo dessa água, também nós devemos continuamente ir ao seu início e beber dela. É que se nós bebêssemos daquilo que damos de beber aos outros, de certeza que seríamos mais coerentes nas escolhas, nas opiniões e nas críticas que fazemos.
“Nunca digas desta (ou daquela) água não beberei”, é um ditado popular que quer dizer que não nos devíamos julgar livres de fazer aquilo que tantas vezes condenamos nos outros. Porque será que agimos assim? Porque estamos mais preocupados com a água do que com a fonte. Vamos à consequência em vez de à causa. Ou seja, seria mais correcto dizer: “daqui ou dali não beberei”. Pois não é só a água que pode estar poluída e contaminada, mas o local onde ela reside até chegar a nós. É importante saber qual a origem da água que nos sabe tão bem ou tão mal.
Thank God i'm a (wheels) woman é muito mais do que uma frase feita enquanto máxima de vida. É uma maneira de estar na vida. Sentada, sim. Sobre rodas, também. Mas é acima de tudo uma opção consciente de querer ser fonte. Sentir-me bem nesta condição e ter a capacidade de agradecê-la, em vez de me queixar dela. É ter a responsabilidade de dar de beber disto a quem se sente desencaixado de si próprio, independentemente de se mover ou não sobre rodas.
Texto de Mafalda Ribeiro
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