Uma a uma, badalada a badalada, desejo a desejo. Uma superstição chamada tradição, em todas as passagens de ano.
Doze meses tem o ano, por isso um desejo a concretizar-se de 30 em 30 dias até nem é pedir muito. Ou seja, cada pessoa fórmula sem custo e instantaneamente um desejo por passa ou uma passa por desejo. Passam-se as passas para a boca. Pede-se muito e fervorosamente, às vezes de olhos fechados.
Mordem-se assim os nossos desejos, passa a passa. Pede-se sempre: o costume e o insólito, o possível e o impossível. Mas deseja-se, pede-se e acredita-se – ainda que esta fé efémera dure apenas o instante que vai de uma passa à outra.
As passas não se partilham com ninguém. São tão pequenas que às vezes escapam da mão e perdem-se na boca. Mas dizemos sempre e quase hipocritamente que o que pedimos nunca é só para nós. Afinal os desejos quando partilhados pode ser que sejam mais depressa concretizados.
Enquanto se comem as passas, por muito rápido que seja o processo, é prioritário na entrada de um novo ano e é solitário. Para engolirmos as passas não damos um beijo a quem está ao nosso lado. Para pensarmos no que vamos desejar não nos podemos desconcentrar com abraços. Para pedirmos e tornarmos a pedir, doze vezes, não podemos agradecer ao mesmo tempo. Será que esta é a forma mais correcta de saudarmos um ano que nasce?
Quando visitamos um recém-nascido agradecemos a dádiva da sua vida e contemplamos o milagre de ele existir, desejando-lhe o melhor obviamente, mas não lhe pedimos nada, pois não? Então porque é que quando um ano nasce começamos logo a pedir-lhe doze coisas?
Para aqueles que dizem que não pedem nada ao ano em si, mas a Deus (seja Ele qual for!) para que faça acontecer durante esse ano; experimentem em vez disso agradecer-Lhe doze coisas (encontram de certeza) que aconteceram de bom e de menos bom - também é importante adquirirmos a capacidade de agradecer as coisas menos boas que terão o seu propósito, mesmo que o desconheçamos - no ano que se despede.
Ou agradeçam-Lhe antecipadamente aquilo que dentro de vós desejam que venha a acontecer durante esse mesmo ano entregues à confiança do positivismo. Por cada passa, ou por cada sultana, um obrigada.
Thank God i'm a (wheels) woman é aquilo que, ano após ano, aconteça o que acontecer, eu quero passar aos outros. Para que os outros passem por mim com a certeza de que vale muito mais agradecer aquilo que temos, lutando ao mesmo tempo por aquilo que desejamos ter, do que nos queixarmos constantemente do que ainda não temos, do que nunca tivémos ou do que já não temos. Isso é deixar que a vida passe por nós.
Eu assumo: não gosto de passas! Mas mesmo que gostasse não me prendo nos rituais do vestir cuecas novas azuis na passagem de ano para dar sorte ou ficar refém de crenças do tipo "se não pedir doze desejos com doze passas à meia-noite o ano vai correr-me mal". Acredito sim que fé e superstição não caminham de mãos dadas.
No meu caso, sempre preferi a fé às passas. Porque nela encontro a segurança que não "passa" de moda, que não é ditada por uma cor e que não me concede desejos porque fiz isto ou aquilo em troca. Começar o ano centrado na lei do medo de "se eu não fizer assim, não me acontece assado", passo a expressão, não é de todo começar de uma forma positiva um novo ano na nossa vida.
Mas há pessoas que fazem deste tipo de passagens de ano o dia-a-dia; mais "por favores" e menos "obrigados"... Depois vivem com as ditas passas entaladas na garganta num misto de sensações de frustração, expectativas defraudadas, desânimo, angústia e desilusão. E a culpa é das passas, pois claro!
Texto de Mafalda Ribeiro
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