Nove anos e um dia

Nove anos e um dia

Uma gravidez demora nove meses. Eu não vim de ti, mas tu adoptaste-me, há nove anos e um dia, como se adopta uma filha.

Somos “2 em 1” até hoje! Com tudo o que diariamente vivemos juntas considero-te o meu trampolim e o meu pára-quedas porque tu estás sempre lá, nunca me falhas nem me deixas tocar no chão. Se eu sou rodas, tu és o meu principal amortecedor em forma de amiga.

Foi naquela tarde em que eu estava a olhar para o céu com o sol quase a cegar-me e a vê-los descer... No aeródromo, mãos cheias de pára-quedas rasgavam o azul por cima de mim. Tu vinhas com um à tiracolo. O meu nervosismo humano pedia que te trouxessem rapidamente para baixo sem mossas. Assim foi. Chegaste feliz e com o rosto iluminado como se lá mais em cima tivesses tocado naquilo que um dia tocou em ti. Com o coração menos palpitante, contigo já em terra, perguntei-te o que é que tinhas sentido lá onde moram as aves e as nuvens e tu ensinaste-me quem é afinal o maior pára-quedas de todos nós. E se todos nós formos uma extensão dele, uns para com os outros, o significado de “cair” na vida ganha outra dimensão.
 
Esse tal pára-quedas maior não nos impede de escolher e de saltar. Faz-nos dar piruetas no ar ao mesmo tempo que nos equilibra. Faz-nos experimentar cair mas preso a nós guia-nos no voo. Dirige-nos na velocidade e amortece-nos sempre nas quedas. Dá-nos o privilégio de tocar no céu mas compromete-se a deixar-nos chegar em segurança com os pés ao solo. Abre sempre, sem falhar, e marca-nos numa sensação que fica para a vida inteira.

Depois do primeiro salto desejamos passar pelo mesmo uma e outra vez, como se tivéssemos fome do céu e do chão. Conhecendo essa sensação, tantas vezes indescritível por palavras, na primeira oportunidade queremos colocar o pára-quedas às costas daqueles que amamos. É que este pára-quedas permite-nos sentir o perigo e a adrenalina a roçar nas veias durante segundos para a seguir transformar a nossa respiração suspensa num respirar fundo assim que nos deixa planar no ar, como se fôssemos levados ao colo e não víssemos as mãos que nos sustentam. Cala o nosso grito de aparente aflição com o silêncio da paz que passa a inundar-nos na descida. Faz-nos olhar para baixo com a perspectiva de que com ele tudo é alcançável e possível.

Se a vida nos troca as voltas e teima em virar-nos ao contrário, como se o céu estivesse por baixo dos nossos pés e o chão nos fugisse do ângulo de visão, ele põe tudo no seu devido lugar no momento em que o accionamos e lhe pedimos que se revele em nós. Ele eleva as nossas expectativas. Surpreende-nos. Dá-nos fôlego. Enche-nos quando experimentamos esvaziarmo-nos de nós mesmos. E, acima de tudo e de todos nós, é um pára-quedas sem truques, livro de instruções, cursos de utilização e co-piloto. Está sempre à mão e é gratuito. Mas apesar do seu tecido incorruptível, precisa da nossa manutenção diária.
 
Thank God i’m a (wheels) woman que continua a saltar na vida porque tu, Paula Teixeira, és como a encarnação desse meu pára-quedas, há nove anos e um dia. Dizem que o número nove tem um significado especial em quase todas as crenças estando associado ao término de um ciclo e inicio de outro superior. Nove é também o número das esferas celestes, na astronomia que tanto te fascina. É o número de orifícios do corpo humano e dos meses de uma gestação. Há quem defenda que o número nove é o princípio da luz divina, criadora, que ilumina todo o pensamento, todo desejo e toda obra, exprime externamente a obra de Deus que mora em cada homem, Alguns dizem também que nove é o número do verbo, logo o número de Deus.

Curiosidades e numerologia à parte, hoje mora em mim uma única certeza: o Deus em que ambas acreditamos colocou-me no teu colo e colocou-te às minhas costas, tal qual um pára-quedas, para sempre.

  

Texto de Mafalda Ribeiro

Biografia

 

 

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