Podia ser unicamente uma anedota inofensiva. Mas o que está implícito na piada não tem graça nenhuma se levarmos em conta que estamos cada vez mais parados na vida, em vez de andarmos nela com a cabeça levantada e a olhar para a frente, mas sem ir atrás de toda a gente por um qualquer assobio.
Responder “vou andando” é o mesmo que dizer “vou indo”. Mas o certo é que não vamos a lado algum. É igual a sobreviver. Vagueamos e por isso achamos que andamos muito. E nem notamos que damos deste modo uma resposta logo à partida derrotista, a juntar a todas as conotações down que dizem que os portugueses já trazem nos genes. Por outras palavras (sim, que nós temos sempre duplo sentido para quase tudo nesta língua!) a nossa resposta é: “mais ou menos”. Paralelamente a considerar o intermédio é o mesmo que nos considerarmos mornos. Não estamos mal nem bem. Nem frio nem quente. Vamos andando... E o pior é que achamos que assim é que está correto porque o “vai-se andando” é pertencer à norma das pessoas ditas normais, é ir na onda e não criar ondas. Os outros que dizem “sim” e/ou “não” é que são os fundamentalistas e os radicais porque têm uma opinião formada sobre tudo. Nós, que lá no fundo se calhar não sabemos o que queremos nem para onde vamos é que “vamos andando”; isto é contraditório ou é uma nuance de bipolaridade?
Parece-me que o problema está exactamente no “ir”. É que quem não sabe se está triste ou contente, está exactamente no mesmo sítio. Existe e por isso está. O quê, é que é mais trabalhoso de afirmar e assumir. Está é assim estagnado e resignado com a posição de se encontrar a meio do que quer e do que não quer. Como sem decisão não há acção, os portugueses neste prisma seriam antes o povo que menos anda. Abanar com a cabeça, encolher os ombros ou pronunciar um “vamos andando” para mim é tudo a mesma coisa. Encarar e verbalizar o “sim” e o “não” de forma decisiva, em prol do “talvez” é que é percorrer quilómetros.
Logo agora que os média acabaram de anunciar que o preço dos transportes públicos vai aumentar 5 por cento. E não é tudo: a reestruturação tarifária veio não só aumentar os preços dos passes e dos bilhetes mas também reduzir os descontos para os idosos, reformados e estudantes. Vamos continuar a andar parados ou vamos parar de andar, neste caso de transportes públicos? O Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) classificou as subidas dos preços de "políticas anti-sociais que impedem o direito à mobilidade das populações. Esqueceu-se foi que ainda nos sobram os pés e as rodas da bicicleta e, no meu caso, da cadeira de rodas. Viajar de comboio e de metro era uma alternativa ao transporte individual que passará a ser incomportável para alguns depois desta subida de preços, que é a terceira no número de aumentos nos transportes só no espaço de um ano. Se calhar agora já temos desculpa para responder de forma diferente a um “está tudo bem?” – “olha, não vamos indo porque andar está mais caro!” Ou então: “vai-se navegando!” - culpa do nome do novo passe, “Navegante, a que os passageiros terão de aderir, em detrimento dos passes únicos do Metro e da Carris para Lisboa, e que permite andar de metro, comboio, autocarro e eléctrico. Navegamos mais mas também pagamos mais!
Thank God i’m a (wheels) woman porque o meu meio de transporte não aumenta de preço e, comigo, esteja tudo muito bem ou tudo menos bem, “vai-se sempre deslizando”…
Texto de Mafalda Ribeiro
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