Essa mesma voz disse ainda, e publicamente, que considera que a minha perspectiva do mundo é muito diferente daquela que os outros têm, nem que seja pela altura… E essa perspectiva do que me rodeia é, muitas vezes ,muito mais real do que a da maioria pois, como não caminho, não me distraio.
Apesar de nunca ter pensado sobre isto assim, concordo e vou mais a fundo na teoria: como não me distraio, não vejo somente o que está à minha volta... reparo profundamente e, quando confrontada com um “acidente de percurso”, sinto-me tentada a agir (nem que seja só com palavras) e esqueço-me – afinal sempre me distraio – que a única coisa que eu devia querer controlar era a direção da minha cadeira de rodas.
E na prática nem isso é totalmente assim. Nem as minhas rodas posso controlar totalmente, basta que a bateria elétrica me falte e a cadeira tem de passar à condução manual. Aí, não tenho outra hipótese senão confiar nas mãos que me empurram. E se me faltar ar nos pneus, culpa da baixa pressão de ar? Se ninguém os encher, deixo de andar. O mesmo acontece connosco, só que quando a pressão sobe, ficamos sem fôlego e paramos.
Lá porque o Saramago deixou escrito que “se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Mais do que olhar, importa reparar no outro. Só dessa forma o homem se humaniza novamente. Caso contrário, continuará uma máquina insensível que observa passivamente o desabar de tudo à sua volta”, não implica necessariamente que o interpretemos à letra, como ele fazia com a Bíblia. Ou seja, mesmo atenta, dentro deste meu “olhar pequeno” (porque repara em pequenas coisas) e sentado, não me devo sentir menos humanizada (e até amada) quando deixo o meu mundo sob o controlo da força que me injeta ar nos pneus e nos pulmões.
Olhar para as coisas de baixo para cima podia fazer com que o medo de viver tomasse conta de mim. Prefiro converte-lo em respeito, afinal tudo me parece maior do que realmente é. Mas isso só se torna uma coisa má se eu colocar os problemas à mesma escala com que olho para as coisas. Ter uma perspectiva mais real do mundo é ter a capacidade de o pormenorizar, não de o dramatizar; e no essencial dar valor ao que é cheio e ao que é vazio, ao que tem muito e ao que tem pouco ou nenhum ar…
"Somente Deus tem o tamanho exato do vazio que existe dentro de nós”, escreveu o matemático e filósofo francês Blaise Pascal. Assino por baixo e acho que com esta frase ele resolveu a mais sábia das equações. Por isso é que, em dias como o de ontem, em que se assinalou o S. Valentim - muitos "distraídos do amor" no dia-a-dia dramatizaram demais e outros lamentaram a sua posição de "encalhados" - eu não me sinto nada um número ímpar. Estou, sim, grata a todos os pares que bombeiam o meu caminho. E mais, eu serei sempre um número par enquanto me sentir preenchida pela força que controla o ar imprescindivel que eu e os meus pneus precisamos para continuarmos na estrada da vida.
Texto de Mafalda Ribeiro
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