Um Nobel de Mulher

Um Nobel de Mulher

Este ano assistiu-se, em Oslo, há poucos dias, à primeira vez na história que o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a três mulheres (à presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, à sua compatriota Leymah Gbowee e à ienemita Tawakkol Karman).

 "Vocês dão sentido ao provérbio chinês, que diz que as mulheres sustentam metade do céu", proferiu o Presidente do Comité Nobel no discurso da entrega. Estas mulheres não geram conflitos, elas têm antes um papel fundamental na resolução dos mesmos. Elas quebram a regra: “onde há mulher, há confusão”, associada ao sexo feminino. 

Lembrei-me de uma mulher a quem, se me fosse permitido, gostaria de ter dado um Nobel. Uma espécie de presente de Natal antecipado. Mas numa categoria que ainda não foi inventada: o Nobel do Amor. O tal provérbio é de Mao Tse Tung e diz que: “as mulheres sustentam sobre seus ombros a metade do céu e devem conquistá-lo”. Esta mulher conquistou-o. Apenas porque sustentou nos seus ombros, durante metade daquela que foi toda a sua vida, e sempre com um amor do tamanho do céu, um “fardo” que não cresceu a seguir à idade da infância.

Nunca a ouvi queixar-se disso, que é muito diferente de se ter queixado nas devidas alturas de mim e dos meus comportamentos, como qualquer mãe que se preze. Foi com ela que nasceu o meu Thank God I’m a (Wheels) Woman. Esta gratidão é uma herança. Porque acho que ela, secretamente, agradecia por poder ainda vestir-me, dar-me banho, fazer a minha cama, secar-me a cabeleira farta, tratar da minha roupa, hidratar a minha pele, obrigar-me a comer a sopa e partir-me o bife mais rijo, e ser a minha motorista.

Ela que dizia que tinha medo de conduzir e que só por mim é que voltou a pegar no carro sete anos depois de ter a carta. Ela que me contava, às gargalhadas infantis da meia-idade que quando era miúda dizia que ia morrer aos cinquenta anos porque parecia que ainda lhe faltava muito… e que agora que já lá tinha chegado se calhar afinal já não era bem assim… Mas foi, e ao volante. Por mim. Há meio ano que foi. 

Uma semana antes disso, enquanto conduzia e me conduzia a uma palestra, perguntou-me a sorrir: “mas olha lá, o que é que tu ganhas com isto? A vida eterna? Então talvez eu também já tenha ganho um bocadinho, afinal sou eu que te levo de um lado para o outro”. Rimos as duas da conclusão a que a razão dela tinha chegado. Agora, a esta distância, fazendo juz à minha memória de elefante, nem ela sabia como tinha razão.

As mães têm sempre razão, não é? E as mães de alguém, como eu, que trocou os primeiros passos pelas primeiras rodas? Essas então, sabem sempre tudo. Pelo menos, esta sabia e também teve um papel fundamental na resolução daquele que poderia ter sido o meu principal conflito interior: não gostar de mim, da pele que me veste e das minhas rodas enquanto extensão de mim própria. Esses “conflitos existenciais”, grandes amigos dos psicólogos, psiquiatras, anti-depressivos e livros de auto-ajuda, a mim nunca visitaram mais tempo do que aquele que dura a época pré-menstrual.

Por isso, toma lá o Nobel do Amor. E no teu discurso, aí em cima, no Céu que conquistaste, sem fazeres nada de “especial” por isso, só por teres sido a minha mãe, não vale agradecer-me, ouviste?
 

 

Texto de Mafalda Ribeiro
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