«Dá-me um minuto, já te ligo». Foi uma eternidade. Quem espera, desespera. E o comboio, que partiu enquanto alguém validava o passe. «É tarde», embora seja ainda manhã. Sempre a correr. Trincar qualquer coisa entre dois dedos de conversa com colegas de trabalho, que a hora do repasto passa num abrir e fechar de olhos.
Estranha noção de tempo. Ora anda a mil, ora ao retardador. Reflexo dos dias sem pausas, sem causas, cobertos por um manto de estímulos que, tantos e uns atrás dos outros, ameaçam cortar a respiração. O tempo anda sempre para a frente. «E ainda lhe chamam (um) presente…»
Um dia pode conter todas as experiências do mundo. Assim o mostrou a iniciativa do Youtube, Life in a Day, passada a documentário: a selecção de 4 500 horas de filmagem, feitas por 80 mil candidatos, de 192 países, é uma viagem à diversidade de gestos humanos e ao imenso mar de rotinas incessantes.
No pólo oposto, todas as experiências do mundo podem ser vividas – e expandidas (em vez de concentradas) – num só minuto. Suspender o movimento perpétuo e deixar o tempo correr, em modo de pausa. Parar e contemplar. Sentir o pulso a um minuto, a qualquer hora do dia, pode fazer toda a diferença. Não apenas na óptica da prevenção rodoviária - «mais vale perder um minuto na vida, do que a vida num minuto» - mas no plano psicológico. Num estilo personalizado.
Saborear a cem por cento a textura dos grãos de arroz que o garfo leva à boca. Desfrutar de gestos que são automáticos, apreciá-los no momento em que decorrem: o toque e os movimentos dos dedos no rosto, durante aplicação do creme matinal; a observação atenta da senhora que atende as pessoas, na caixa de pré-pagamento, enquanto se aguarda vez. O estar «aqui e agora», sem estar, ao mesmo tempo, noutro lugar qualquer. No antes. Ou no depois.
Cada minuto que se vive em pleno, liberta-nos do anterior. E liberta-nos, ainda, daquele que está para vir, poupando muitos segundos de angústia, senão horas ou dias de ansiosa pré-ocupação. «Devagar que tenho pressa», é o lema no Oriente. A Ocidente, a consciência do tempo é mais pop: «Live fast, die young». Mas seja qual for o compasso, há sempre um momento para regular o passo. O pulso. A respiração. E conquistar a des-contracção. Num minuto.
Texto de Clara Soares
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