Assalto aos Corações

Assalto aos Corações

Este ano (não) tem Carnaval. E libido, tem?

Já bastavam os feriados, laicos e religiosos. Agora, o ónus recai nos festejos, ou simplesmente nos ócios, que precedem o jejum e a penitência, até à Páscoa. A tolerância (também a de ponto), está por um fio. Ironia ou não, o dia da festa pagã está a levar um abanão. E é de prever que a expressão «A vida são dois dias e o Carnaval são três» fique, em breve, para a História como «chão que deu uvas». Pergunta óbvia: «Então é só jejum e penitência? E a festa, onde está?»

Para dar mais sumo à história, note-se que, há já algum tempo, o Dia Oficial do Namoro – vulgo, Dia de São Valentim (ou dos Namorados) - coincide, no calendário, como outra data que interessa particularmente aos homens: o Dia Europeu da Disfunção Erétil. Outra pergunta óbvia: «Isto é uma partida de Carnaval?» Que o festival da carne seja um empecilho para os mercados, é uma coisa; nos tempos que correm, era de esperar que tivesse os dias contados. Agora, que a (des)unida Europa esteja a ter efeitos secundários nas braguilhas dos cidadãos é que já se afigura mais complicado. Um caso bicudo, portanto.

Começo a pensar seriamente no Efeito Borboleta, que decorre da teoria do caos: qualquer sistema natural, dinâmico e complexo é sensível às condições que estão na sua base. Trocado por miúdos: o bater de asas de uma borboleta pode influenciar a emergência de um tufão no outro lado do globo. Então, em que ficamos? Há falta de vigor nos membros europeus, com impacto nas questões de crédito? Ou, mais conspirador ainda, serão as condições caóticas do Velho Continente, essas «vilãs» que vieram a dar cabo da pica aos europeus e, especialmente aos latinos?

Romanos e visigodos sempre se tiveram em boa conta, comparados com outros povos, menos dados a exibir os seus dotes em praça pública. Tal verve não é de agora e remonta a outros tempos. Quando um imperador se lembrou de proibir a celebração de casamentos para formar um exército poderoso, eis que um bispo romano, indignado, se prestou a cumprir, em segredo, o ritual. Tal ousadia custou-lhe caro. Foi decapitado num 14 de fevereiro.

Alguns séculos depois, os costumes privados foram liberalizados e a sociedade dita civilizada entregou-se à novidade, à nova realidade. Perder a cabeça ganhou outra dimensão e passou a ser algo legítimo, até pelos estudos da biologia da paixão. Estava a ir tudo mais ou menos bem quando começaram a pairar as piores ameaças. Este ano, não tem Carnaval. A vida são só dois dias, com tolerância zero. E como não há duas sem três – a conta que Deus (ou o caos, ou o acaso) fez – o dia do namoro está a converter-se, a avaliar pelas estimativas de organizações médicas, a data de rastreio clínico. É a verdade nua e crua. Depois disto, só uma nota: com ou sem pieguices, que o dia dos namorados (qualquer que seja a modalidade) seja seu (e ao seu estilo!).

 

 

Texto de Clara Soares

Biografia

 

 

 

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