«É coisa que requer cuidados, para os aros não se partirem, e já que tenho as mãos sujas, não me custa nada». Que tinha que ter cuidado com as mãos, brincava eu, enquanto assistia à operação.
Hoje, os homens também se querem com as mãos bem tratadas, e cremes à altura do trabalho de mecânico.
«Cremes para quê? Quando morrer vou deitado». Não resisti à provocação. «Seguindo essa lógica, para quê então mudar os tampões dos pneus de um carro usado?»
O homem fez uma pausa e afirmou, convicto: «Com os carros é diferente. Devem estar impecáveis». Nem que seja para ficarem aptos para novas marcas na chapa (ou nos tampões dos pneus), disse eu para os meus botões.
É curioso admitir a hipótese de se dar mais valor às coisas, aos objectos eleitos como extensões pessoais, do que ao próprio corpo, o nosso veículo original.
Consequência nº 1: lêem-se de outra forma as batalhas automobilísticas diárias na A5, onde os topos de gama se agarram com afinco à terceira faixa de rodagem. Mais do que pessoas stressadas, movem-se ali os predadores da selva urbana.
Efeitos Secundários: Carros que enchem o olho fazem os condutores sentir-se intocáveis. Dentro da sua «impecável» armadura, quais gladiadores pós-modernos, vivem a ilusão de potência exibindo gestos obscenos, acompanhados de «bocas» dirigidas a quem vêm pelo caminho.
Muitos possuidores destas «máquinas» são homens de meia-idade, corpos largos, cabelo rapado para disfarçar a calvície e óculos escuros. A puxar ao estilo dos agentes do filme Matrix, mas sem o glamour dos vilões da saga.
Ali, na oficina, fato-macaco e mãos sujas de óleo como cartão de visita, o atencioso técnico oferecia os seus préstimos. Como seria ele ao volante?
Texto de Clara Soares
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