Saiu para a rua, ao final da tarde, com o espírito inquieto. Passara o dia a ler e a sublinhar anúncios de jornal. Fizera ainda uns telefonemas. Mas nada. Nada que lhe pudesse interessar para manter a estabilidade a que se habituara, no emprego anterior, que agora lhe parecia bem melhor do que quando lá estava, até à reestruturação.
Lembrou-se do que ouvia os adultos dizerem, quando ele era criança. Um homem sem emprego é um homem sem eira nem beira. Sem rumo. Um perdido na vida. Embora não fosse crente, deu por si a pedir um sinal ao Senhor. Uma orientação para a errância, pois nela não sabia conduzir-se, pelo menos da forma que conhecia até então. E a realidade era agora um sentimento estranho.
Na hora do crepúsculo, todos os homens lhe pareciam pardos. E perdidos. Ou eram os corações sombrios, que só davam de si ao começo da noite. Cruzou-se com um estranho que, como ele, parecia entregar-se aos passos errantes, acompanhado de um cão. Ao vê-lo afastar-se, na esquina que ficava atrás de si, encostou-se a um parquímetro e enrolou um cigarro. «É só isto? A Vida é só isto?» era tudo o que lhe vinha à cabeça.
Acelerou o passo. Como se assim afugentasse a impressão de estar preso, dentro de si e dos seus pensamentos sombrios. Ofegante, deu por ele a abrandar o passo, a marcar o passo outra vez, atento à redução dos batimentos cardíacos, aos bafos de ar quente que exalava naquele dia frio e húmido. Entregou-se, então, à nova dança do seu corpo, aos movimentos cadenciados das pernas e dos músculos, agora mais firmes. Mais familiares.
Respirou fundo e levantou a cabeça na direcção do céu. Um céu índigo que teve sobre ele um efeito balsâmico, fazendo-o sentir-se em casa (ou como queria ter-se sentido durante o tempo em que lá permaneceu, desde que acordou até ao por do sol). Tomado por esta nova sensação de equilíbrio, começou a desfrutar aquela caminhada sem destino, que tinha começado por ser uma fuga do seu próprio labirinto mental, assombrado pelo medo e a insegurança.
Com todas estas mudanças, neuronais, químicas e fisiológicas, o coração ficou pacificado. Aconchegado. E veio-lhe à mente a melodia de P J Harvey, The Dancer. E foi como se o Senhor da canção entrasse em cena, e lhe fluísse nas veias, pelas narinas, passo após passo. «Ele disse dança para Mim e ri-te um bocado, Eu posso fazer o teu coração sentir…».
E caiu em si. «Um homem desempregado não é um condenado, como me contaram em criança». Ok, já não se via como um funcionário bem sucedido. Nem como mais um funcionário desnecessário. Era, apenas, um Homem, diferente daquele que imaginava ser, nas suas antigas circunstâncias. «Só isto. E isso, afinal, é muito».
Sentiu vontade de descansar, aterrar na sua cama e inverteu a marcha. Cruzou-se outra vez com o homem e o cão e deu-lhe as boas noites. O sorriso dele era afável e não tinha nada de pardo. Mesmo quando está só, ou quando se sente perdido na dança de que faz parte. «Um homem nunca se perde de si». E adormeceu, embalado e rendido à sua descoberta.
Texto de Clara Soares
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