Meninas «Boas», Meninas «Más»

Meninas «Boas», Meninas «Más»

A intimidade já não é o que era. Espontaneidade, precisa-se.

Num documentário classificado «para adultos», uma famosa stripper explicava uma das técnicas para cultivar a aura de mulher poderosa: «Na hora de iniciar o jogo da sedução, percorro o olhar pela plateia e escolho um homem que não seja tão bonito ou atraente, pois assim fico mais segura de ser eu a assumir a posição dominante no jogo». Um jogo que a tornou rica, aliado aos seus dotes de dançarina.

Desde sempre, as mulheres dominaram a arte de encantar, valendo-se de táticas subtis. A diferença é que agora elas são óbvias, sem medo de serem queimadas na fogueira ou estigmatizadas pelas outras mulheres. Elas despem-se sem vergonha, sem culpa e, acima de tudo, sem ficarem emocionalmente nuas.

Algumas, vestem mesmo a pele de vingadoras, mulheres fatais à altura de qualquer Martini Man, Marllboro Man ou Action Man. Elas não lhes deixam espaço para serem «malandros», para exibirem os seus dons de caça «à matador».  Exercem, intencionalmente, o controlo e o poder através de poses e gestos calculados e ousados.  Exibem-se como objetos de desejo e simulam disponibilidade. Intimidade até. Parecendo «ao ataque», jogam à defesa e nunca baixam a guarda, mantendo a distância (e apostando no grau de dificuldade de entrega).

Hoje, como ontem, elas continuam a gostar de ser desafiadas, seduzidas, encantadas. Ontem entregavam-se após terem aliança no dedo e as reivindicações eram circunscritas à cozinha. Hoje continuam a conviver com a Cinderela que habita nelas, mas ninguém lhes diz qual o sapato a calçar nem onde devem por o pé. Hoje, como ontem, elas alimentam fantasias com homens perigosos, pouco ou nada protetores, e arrebatadores. E fazem de conta que são perigosas, pouco ou nada carentes de proteção e jogadoras profissionais.

O maior afrodisíaco continua a ser «desejar ser a presa». Ontem elas disfarçavam esse desejo pela encenação da menina que não é «fácil», a reservada e com pudor. Hoje elas sabem que quanto mais perto chegarem de alguém que as «prende», maior a probabilidade de se magoarem. Eles deixam-se seduzir mas, cada vez mais, por um bom prato, pelo conforto proporcionado por uma mulher que os saiba apreciar, ouvir e mimar, de preferência de forma espontânea e sem truques. E acautelam-se. A intimidade é um jogo de xadrez para parceiros com currículo afetivo.

Conclusão: A vida não é fácil, tanto para as meninas «boas» como para as «más». 

 

Texto de Clara Soares

Biografia

 

 

 

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