Na cama com…

Na cama com…

Um supersticioso

Ele deixou cair o isqueiro quando tocaram à porta. Irritava-se por ficar naquele desassossego, sem norte e sem freio. Foi abrir.

«Não te fiz esperar muito, pois não?»
Aqueles lábios convidavam a um mergulho que se adivinhava perfeito.
Não queria dar parte de fraco. Ficou calado.
O que eram quarenta minutos de espera?
Um minuto por cada ano de vida.
Conheceu-a nos corredores e salas da net.
Silenciosamente, noite após noite,
Dispararam para o teclado,
Toda a fantasia que tinham calado,
Sem nunca se verem, ouvirem ou saberem quem de fato eram.

Prometeram manter secreta a identidade,
O nome, a face, a voz.
Encontraram-se num dia 5, marcaram encontro no quarto nº 5,
(até o perfume dela era Channel)
E às cinco da tarde daquela quinta-feira,
Nada falaram, nenhum nome chamaram,
E os olhos decidiram fechar-se,
Para melhor planarem naqueles corpos estranhos,
De encantos tamanhos.
Hoje era a quinta vez que se viam,
No espaço de cinco meses.
Mergulhou como se não houvesse amanhã.
E não houve.

«Eu sabia que o cinco não era o meu número», tranquilizou-se.
Além disso, ela era imprevisível... até à quinta casa.

 

Texto de Clara Soares

Biografia

 

 

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