O (tal) Ano Novo

O (tal) Ano Novo

Um brinde ao que nos espera e… à capacidade de entrega

Dia 1.
Esta coisa do Ano Novo tem que se lhe diga. A incerteza é sempre garantida. E 2012, diz-se por aí há bons anos, é o tempo de todos os medos. De um trago, exorciza-se o que já foi e não deixou saudades. Fazem-se os votos de outros anos. «Haja dinheiro e amor». «Haja saúde e trabalho».

E alinham-se, como é tradição, resoluções de vida para os próximos 365 dias: deixar de fumar, fazer dieta, ter mais tempo para os amigos, mais paciência com o chefe, a sogra, o filho adolescente, a pessoa que se tem como companheira de sono e de estrada. E jogo de cintura, vulgarmente conhecido por desenrascanço e contabilidade criativa.

Dia 2.
 «Vira o disco e toca o mesmo». Ou melhor, clica no mp3, que a música é sempre a mesma. Para quê, então, brindar, quando se é já brindado – ou melhor, «lixado, sem ser tido nem achado» - com mais dificuldades e apertos? «Portugal é maior que a crise». Palavra de Presidente. Mas a lógica global é a dos mercados. Da vida feita aos bocados. E da lufa-lufa em circuito fechado.

«É cada um por si». Já não para ser o primeiro, o mais bem sucedido, o «mais» qualquer coisa, comparado com o vizinho. Mas pela ingénua, embora doce, ilusão de preservação. «O mal está nos outros». Um individualismo frio como o Inverno, o perigo está sempre à espreita. «Amar o próximo» será, afinal, «desconfiar do próximo»?
Enquanto os dias passam…  

… vão-se passando coisas. Como as modas, que acrescentam um factor de novidade em cada colecção, apesar de não serem inteiramente «novas», há gente que começa a virar costas ao medo e a iniciar outro modo de conduzir-se, sem as bússolas que lhe são impostas. Há quem cultive o sistema de troca directa, o mais antigo da Humanidade. Há quem se atreva a procurar significado para as suas rotinas.

Há improvisação, movimentos voluntários, espontâneos e solidários. Talvez pelo reconhecimento das fragilidades, próprias e dos outros. Talvez pelo indisfarçável desejo de aquecer a solidão. A cooperação como terceira via, numa lógica local de mercado que não pretende ser «super». A receita para o auto-governo faz-se de movimentos de aproximação e do estabelecimento de vínculos autênticos, à prova de estados «nervosos» e «euforias» sem rosto.
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Texto de Clara Soares

Biografia

 

 

 

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