Impressões de um dia:
Sei bem que é Inverno, época dada a tempestades e recolhimentos vários. Faz frio. Este Fevereiro, o mais curto do ano, tem sido generoso em sol e impiedoso em temperaturas baixas. Faz frio como o raio, dirão, porventura, os velhos e os novos velhos que, no final da meia-idade, não conseguem recuperar o fôlego para manter ou encontrar novas formas de subsistência.
A todos eles e a alguns de nós, o frio afecta. Por vezes queima. Muitas vezes, mais do que o recomendável, mata. Dizem que a Europa tem estado sob a influência de uma massa polar. Para quem sente que a terra que habita é uma Sibéria, isso é coisa de somenos importância. Se calhar padecem mais com a televisão que está, ou vai ficar, a negro. Se calhar estão mais preocupados com «o comer», o que comer, como conseguir estar sem médico, sem transporte, sem agasalho emocional.
No livro Collateral Damage, Social Inequalities in a Global Age, o sociólogo polaco Zygmunt Bauman argumenta que os novos pobres são a face sombria do mundo moderno e líquido, orientado para o consumo e onde poucos triunfam, alienando os direitos de uma imensa minoria de seres humanos.
E agora, um exercício criativo, vulgarmente designado, em inglês, pela expressão «A penny for your thougts». Dois minutos do discurso interno de um «esquimó», numa manhã de Fevereiro:
2012 é um ano bissexto. Mais um dia a «prejudicar» o magro orçamento. “Quando não chove em Fevereiro, não há bom prado nem bom celeiro.” Os velhos sabem. Têm experiência dos anos e das estações, das leis naturais e da ordem natural das coisas. Ouvi na rádio que este é o Ano Internacional da Energia Sustentável para todos.
Sustentar-se, pois. Algo que nem todos podem exercer de pleno direito, nos dias que correm. Frios como o raio. Na companhia da televisão. Sem cabo nem descodificador, o pior que pode acontecer é viver com o apagão. É da maneira que uma pessoa se poupa às desgraças a passar no ecrã. Haja verba para manter a conta de electricidade em dia e logo se vê se o orçamento vai para o aquecimento ou para o entretenimento.
O médico, na última vez que lá fui, disse que eu tinha a vista cansada. Que os óculos precisavam de outras lentes. Mas é melhor para o mês que vem… «Março, frio, ou molhado, enche o celeiro e farta o gado». Além disso, li no Borda d´Água, se a memória não me trai, que a quarta-feira de cinzas é lá para o dia 22 deste mês. Quaresma a minha… não há maior calvário que uma vida de travessia no deserto, que isso é certo.
Texto de Clara Soares
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