Sem backup

Sem backup

Quando o fácil e promissor se converte num filme de terror

Disseram-nos um dia, ou quisemos acreditar, que seriamos jovens para sempre. Que teríamos mais tempo livre e qualidade de vida proporcionada pela nova economia. Pareceu, durante uns tempos, que Era Tecnológica – e a lógica algorítmica dos circuitos electrónicos - iria facilitar-nos a vida. A qualidade da vida. Que traria rigor e precisão às nossas escolhas. Na saúde, na educação, nas finanças, no trabalho, nas relações com os outros. Que nos pouparia tempo, esforço, deslocações e burocracias.

Era para ser um mundo à medida, user friendly e intuitivo, feito de toques de ecrã e de realidade aumentada, expandida à escala da imaginação e pronta a usar em proveito próprio. Mas toda a revolução tem o seu quê de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Rodeados por câmaras, bandas magnéticas e chips que, queremos crer, nos trazem conforto, segurança e controlo, somos surpreendidos todos os dias com a estranha sensação de desgaste, fadiga e impotência.

«Ups, onde deixei o telemóvel? E agora, que fazer quando nem sei de cor o número das pessoas que me são mais próximas?»

«Ai credo, onde foi parar a minha informação, agora que o maldito vírus minou todos os dados que tinha guardados?»

«Porque é que parece que o tempo nunca chega e não consigo parar?»

«Onde está o meu tempo livre, de desfrute e qualidade?»

Curtos são os dias para tantas e longas rotinas em que ficámos presos, na ilusão de que poderíamos ser mais livres e eternamente jovens. Manter a máquina envolve uma carga de trabalhos (Os equipamentos user friendly avariam, desatualizam, desconfiguram, há que listar palavras-chave, atualizar programas e contatos, acompanhar procedimentos e regulamentos que estão sempre a ser alterados, lidar com call centers com atendimento automático sem voz humana).

Como num jogo virtual, em que o valor pessoal se mede aos pontos, a uma velocidade implacável, fica-se com a sensação de que nada é o que parece, e de que impera o lema «cada um por si». De que este estranho mundo novo não é tão admirável nem saudável, nem se recomenda a info excluídos. A velhos, menos ainda. Agora que sabemos que a idade é, cada vez mais, um fator de discriminação social, e que se deixa de ser considerado jovem cada vez mais cedo, entre nós, portugueses (atesta-o um estudo recente).  

Há quem seja tomado pelo medo de dar um passo em falso, por incapacidade de avaliar aquilo que está, realmente, a acontecer. Há quem se vá desregulando sem freio, de reação em reação, agarrado à superfície e incapaz de tocar a espessura dos dias. Deixa de importar já se tudo não passou de uma miragem. Conta agora o sonho último: resgatar o direito de amor e de autor, o que de humano ainda resta, para que se não viva e morra sozinho, no meio de tanta comunicação em rede.

 

Texto de Clara Soares

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