Velhos do Restelo ´r Us

Velhos do Restelo ´r Us

Quando há mudanças com fartura, com resultados incertos, ouvem-se cada vez o coro: «Eu só quero que fique tudo na mesma»

É aquele que, tardiamente iniciado nas lides do Facebook e ainda a explorar a ferramenta, se desagrada com o novo template a que se vê «forçado». É aquela que, zelosa da sua privacidade e orgulhosa por não circular nas redes sociais, se vê agora na iminência de ter de optar por outro mail, porque o Google+ não tem meio-termo: ou se aceitam as novas condições («Oh, Deus, lá me vão usar os dados pessoais!») ou «adeus e até à próxima». Para eles, a coisa estava bem assim, não era preciso mais mariquices.

O recém-chegado ao mundo laboral, que ainda não se entende bem com o novo código contributivo, já sente saudades dos recibos verdes não electrónicos. O reformado, farto de perder-se no labirinto dos call centers, também tem crises revivalistas. Não lhe falem de mais mudanças, «pra pior já basta assim». Bastou-lhe detectar um erro numa factura da Zon. E ver-se a braços com uma qualquer Marta, depois de ser alvo da distracção de um condutor que saía do estacionamento e lhe amolgou o carro. «Antigamente é que era bom, falava-se no balcão e ficava resolvido, ou então chamava-se o chefe.»

A engrenagem não pára. «Que saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta quanto eu…», canta Maria, para espantar os medos de uma vida que terá de prosseguir com a habitação penhorada, por ter tido a ideia de aceitar a sugestão do banco para fazer um crédito, após a decisão de divórcio. Talvez devesse saber ler melhor as cláusulas em letras miúdas, estar mais a par das desvalorizações das casas, das flutuações dos mercados e dos planos das troikas.

Mas porque é assim tão mau que tudo esteja sempre a mudar (as nossas rotinas)? Porque é chato comprar um telemóvel e estar sempre a receber mensagens com promoções de produtos e serviços. Porque já não se sabe o que fazer quando telefonam para a rede fixa a insistir para que se tenha um novo tarifário ou com um inquérito qualquer. Porque o computador avaria e a garantia caducou no mês passado, uma semana após o fim da depois da garantia e, pelo preço do arranjo e mais uns trocos, se compra um novo (e o orçamento não se compadece com esta lógica).

E nesta incerteza se cumprem os dias, a retalho. Cada um vai, como sabe e pode, aplacando o desconforto da fragmentação e da falta de continuidade. Uns convencem-se de que é melhor adaptar-se, para poder existir neste mundo ao contrário. Outros adiam até ao limite as alterações a fazer, agarrando-se à ideia de que é melhor aproveitar o formato antigo até ao fim e saborear os últimos cartuchos. Os que, indignados, devolvem o cartão do banco, cancelam serviços e tentam a sua sorte num registo alternativo, não menos desafiador. «Ao menos sou eu que decido.»

 

 

Texto de Clara Soares

Biografia

 

 

 

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